Celi Pinto reflete sobre os avanços e contradições da participação das mulheres na política brasileira
Por Clarrissa Hennig
A participação das mulheres na política brasileira tem sido um processo marcado por avanços, retrocessos e desafios contínuos. Para compreender melhor essa trajetória e o impacto do feminismo nesse cenário, entrevistamos Céli Regina Jardim Pinto, uma das principais referências no estudo da participação política das mulheres no Brasil.
Céli é Professora Emérita da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e doutora em Ciência Política pela University of Essex, na Inglaterra. Sua trajetória acadêmica é marcada por pesquisas sobre teoria política, democracia e feminismo, e suas obras são fundamentais para quem deseja compreender as transformações e permanências que caracterizam a atuação feminina na política. Seu livro Uma História do Feminismo no Brasil é um marco nos estudos feministas nacionais e contribui para a análise das estratégias e desafios enfrentados por mulheres em diferentes momentos da história política brasileira.
Nesta entrevista, Céeli nos ajuda a revisitar o passado para compreender o presente e projetar o futuro da participação feminina na política. Discute desde a luta pelo sufrágio até os dilemas contemporâneos da representatividade, refletindo sobre os obstáculos que persistem e as conquistas alcançadas. A conversa oferece um panorama essencial para mulheres que atuam na academia, na política ou em outras áreas profissionais, promovendo questionamentos atuais e necessários sobre o feminismo e a democracia no Brasil.
Instituto Racionalidades: A senhora possui uma trajetória marcada pela atuação na academia e na ciência política no Brasil. Poderia nos contar um pouco sobre os desafios e lutas que enfrentou ao longo desse percurso, especialmente no que diz respeito à inserção dos estudos feministas nesse campo?
Céli Pinto: Bom, essa é uma longa história. Eu costumo dizer que cheguei ao feminismo não por questões vias acadêmicas, como muitas mulheres fizeram, mas por uma experiência vivida. Quando fui para a Inglaterra, em 1979, para fazer meu doutorado na University of Essex, meu tema de pesquisa não tinha absolutamente nada a ver com feminismo. No entanto, naquela época, o movimento feminista fervilhava na Europa, e esse contexto me impactou profundamente. Junto com outras mulheres latino-americanas, fundamos um grupo feminista dentro da universidade. Naquele momento, havia um grande número de mulheres da América Latina vivendo na Inglaterra, muitas delas esposas de estudantes ou empregadas domésticas que acompanhavam suas famílias. Elas estavam completamente isoladas por não falarem inglês, sem sequer conseguirem assistir à televisão. O nosso grupo se estruturou justamente para acolher essas mulheres e criar um espaço de discussão sobre suas condições. A única regra para participar era falar português ou espanhol, independentemente da nacionalidade. Esse grupo teve uma trajetória muito marcante dentro da universidade. Produzimos um jornal, conseguimos financiamento da universidade para manter nossas atividades, organizamos manifestações e promovemos sessões de cinema latino-americano. Chegamos a ser capa do jornal da universidade, mostrando a força do movimento. Ao longo dos meus quatro anos na Inglaterra, esse grupo se consolidou, e mesmo após minha saída, continuou ativo por um tempo. Foi essa experiência que me fez voltar ao Brasil imbuída do feminismo e determinada a levar essa discussão para a universidade. Quando retornei e comecei a lecionar na UFRGS, tentei recriar um grupo semelhante dentro do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, com o objetivo de abrir a universidade para mulheres de fora do ambiente acadêmico. Esse projeto funcionou bem por cerca de um ano, mas depois foi absorvido pela estrutura universitária e se tornou um grupo de estudos feministas mais tradicional, perdendo o caráter de extensão que eu havia imaginado. Dentro da ciência política, o caminho foi ainda mais difícil. Essa foi a última das ciências sociais a incorporar os estudos de gênero. Enquanto a sociologia e a antropologia já discutiam a questão das mulheres, seja por meio dos estudos sobre trabalho ou estrutura social, a ciência política era dominada por uma perspectiva masculina, que não enxergava a relevância desse debate. A própria história acadêmica área da História no Brasil, fortemente influenciada pelo marxismo clássico, também apresentava resistência ao estudo dos movimentos sociais. Foi somente ao longo dos anos que começamos a consolidar esse campo dentro da academia. Quando cheguei à Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS), já existiam dois grupos de pesquisa dedicados aos estudos feministas: um focado em mulheres e trabalho, outro em mulheres e política. Inicialmente, esses temas eram vistos como secundários dentro da academia, mas ao longo do tempo conseguimos estabelecer um espaço sólido. Esses dois grupos acabaram se unindo e dando origem ao Grupo de Estudos de Gênero, que existe até hoje. Outro momento crucial foi o apoio da Fundação Carlos Chagas, em São Paulo, que por mais de uma década ancorou um programa de pesquisa sobre mulheres e gênero, financiado pela Fundação Ford. Esse projeto reuniu dez feministas de diversas partes do Brasil (ainda que, sejamos francas, apenas do Sudeste para baixo), e tivemos um impacto significativo na estruturação da pesquisa acadêmica sobre feminismo e gênero no país. Durante esse período, ajudamos a financiar projetos em diversas universidades, especialmente no Norte e Nordeste, ampliando o alcance desses estudos. Foi a partir desse programa que surgiu a ideia da Revista de Estudos Feministas, que hoje é uma das publicações acadêmicas mais importantes do Brasil em ciências humanas. Esse processo foi fundamental para mudar a qualidade e o reconhecimento da produção acadêmica sobre gênero no Brasil. Muitas das grandes referências feministas que atuam nas ciências humanas atualmente passaram pelo projeto da Fundação Carlos Chagas. Esse esforço coletivo ajudou a consolidar um campo de estudos que, no início, era considerado irrelevante dentro da ciência política e das ciências sociais em geral. Hoje, esse cenário mudou, mas a luta por espaço e legitimidade dentro da academia continua.
IR: Para compreendermos o cenário atual das mulheres na política, vamos voltar um pouco no tempo. Como e por que o movimento sufragista surgiu no Brasil e quais foram seus principais desafios?
CP: O movimento sufragista no Brasil começa quase por acaso. Digo isso porque seu início está muito ligado ao trabalho de uma pessoa, Berta Lutz. Antes dela, havia mulheres que escreviam em jornais, falavam sobre o direito ao voto e lutavam por ele já no século XIX, durante o Império, mas elas nunca conseguiram força suficiente para criar um movimento organizado como aquele que conhecemos. Por que Berta Lutz conseguiu?
Porque ela era uma mulher da elite, filha de um dos maiores cientistas do Brasil[1]. Ela estudou fora, nos Estados Unidos e na Europa, e entrou em contato com o movimento sufragista. Ao voltar ao Brasil, começou a participar de tentativas de organização do movimento e chegou a financiar a vinda de sufragistas americanas para palestras. O movimento sufragista brasileiro, como o conhecemos, se organiza em torno dela. Berta tinha um capital econômico, cultural e político muito grande, o que lhe permitiu dialogar com políticos e estruturar um movimento forte. Não era a única figura, havia outras mulheres, e já em 1910 surgiu um Partido Republicano Feminino. Este partido, embora pequeno, chegou a realizar manifestações nas ruas do Rio de Janeiro. O mais interessante é que um partido político normalmente existe para chegar ao poder, mas essas mulheres não podiam sequer votar. O movimento sufragista se consolidou ao redor de Berta Lutz porque ela tinha acesso e influência. Seu nome foi central para essa luta nas primeiras três décadas do século XX.
IR: Como Berta Lutz conseguiu articular o movimento para torná-lo forte a ponto de garantir o direito ao voto feminino na década de 1930?
CP: Precisamos considerar dois fatores. Os meios de comunicação eram precários: cartas levavam meses para chegar de um lugar ao outro. Ainda assim, o movimento de Berta Lutz se espalhou pelo Brasil. Encontramos centros de luta pelo progresso da mulher no Rio Grande do Sul e no Nordeste, todos ligados a ela. Além disso, algumas mulheres tentaram se inscrever para votar antes mesmo da conquista oficial do direito ao voto em 1932. Elas usaram o argumento de que a Constituição de 1891 não dizia explicitamente que as mulheres não podiam votar. Ela estabelecia que eram cidadãos brasileiros todos os brasileiros natos ou naturalizados e que poderiam votar a partir dos 18 21 anos, com exceção de analfabetos, mendigos, praças e padres e presidiários. Mas não mencionava as mulheres entre os proibidos. A Igreja Católica, curiosamente, muitas vezes foi favorável ao voto feminino. Por quê? Porque a igreja considerava as mulheres conservadoras e religiosas e apostava que elas votariam por candidatos alinhados aos interesses católicos.

IR: A senhora é autora de um artigo sobre 12 mulheres pioneiras da política brasileira no pós-Estado Novo. Quais foram as condições que contribuíram para a entrada delas na política?
CP: Essas mulheres tinham algumas características em comum. Eram professoras, tinham nível educacional superior à média da sociedade e, quase sempre, tiveram pais liberais, que incentivaram sua educação. O curioso é que o poder patriarcal teve um papel fundamental para que essas mulheres chegassem à política. Seus pais decidiram que elas poderiam estudar e se desenvolver intelectualmente. As mães quase nunca aparecem nessas biografias. A maioria delas entrou na política mais velha, já com filhos crescidos ou depois de construir carreiras no magistério ou no jornalismo. Elas eram mulheres intelectualizadas, pertencentes a famílias de posses. Não encontramos mulheres de classe popular ou de esquerda nesse contexto.
IR: Como a ditadura militar impactou o movimento feminista no Brasil?
CP: O movimento feminista ressurgiu no mundo quase no fim da década de 1960. Então, em 1964, ele não foi diretamente impactado pelo golpe porque, simplesmente, ainda não existia no Brasil da forma como conhecemos hoje. Mas, posteriormente, a ditadura teve um impacto forte. A ONU declarou 1975 como o Ano Internacional da Mulher, o que legitimou a luta feminista. Mas, no Brasil, a ditadura via o feminismo como uma ameaça à moral e à família. Os militares acreditavam que o feminismo destruiria os valores tradicionais, promovendo aborto e “amor livre”. Para evitar a repressão, as feministas realizaram congressos e reuniões sob títulos genéricos, como “discussão sobre saúde” ou “direitos da família”, e precisavam incluir homens nas mesas para que os encontros fossem autorizados. O movimento feminista também foi impactado pela esquerda marxista clássica, que via as pautas feministas como um desvio burguês da luta de classes. Mulheres exiladas na França e nos Estados Unidos relataram que seus companheiros de esquerda rechaçaram suas reivindicações feministas. No Brasil, mulheres em centros acadêmicos eram acusadas de trair a luta de classes por abordarem questões de gênero. O feminismo foi “ensanduichado” entre a repressão militar e a resistência da esquerda tradicional.
IR: Durante a redemocratização e a Constituição de 1988, qual foi o papel das mulheres?
CP: Durante os anos 1980, houve uma intensa mobilização feminista. Foi criada a Carta das Mulheres aos Constituintes, com demandas sobre trabalho, licença-maternidade, salários iguais, segurança e direitos de apenadas para amamentação, entre outros pontos. O Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM), criado em 1985, teve papel fundamental. Na Constituinte, 26 deputadas – a maioria conservadora – acabaram se aliando às feministas porque estavam isoladas num espaço predominantemente masculino. O resultado foi que a Constituição garantiu avanços significativos para as mulheres.
IR: Como a senhora avalia a atuação das mulheres na política nos anos posteriores?
CP: Foi muito difícil para as mulheres, quando começaram a concorrer, assumirem sua identidade feminina nas campanhas. Elas não se apresentavam como mulheres disputando cargos, mas apenas como candidatas, porque acreditavam que isso poderia tirar votos. Por exemplo, Emília Fernandes, que foi senadora pelo Rio Grande do Sul, nunca usou o feminino para se autodenominar em sua propaganda. Ela era uma mulher muito feminina,que se preocupava em ser uma mulher bem vestida e maquiada usava roupas chamativas, mas jamais dizia “sou uma mulher candidata”. Em outra situação, quando Maria do Rosário, Luciana Genro e Manuela D’Ávila concorreram à prefeitura de Porto Alegre contra José Fogaça, nenhuma delas se apresentou publicamente como mulher. Hoje, todas se assumem feministas, o que é ótimo, mas, na época, evitaram esse discurso. A invisibilidade também vem dos partidos, que fazem de tudo para prejudicar candidatas. As mulheres recebem menos recursos, menos espaço e menos apoio estrutural. Quando perguntadas sobre quem mais as prejudicou na campanha, a resposta nunca é o adversário, mas sim o próprio partido. Os partidos são dominados por oligarquias masculinas que escolhem os candidatos viáveis e direcionam os recursos para eles. As mulheres são frequentemente colocadas apenas para preencher cotas.
IR: Poderia nos explicar o conceito de feminismo de Estado e como ele se manifestou nos primeiros governos petistas? Quais foram os principais avanços para as mulheres nesse período?
CP: O feminismo de Estado é um conceito que pode ser analisado a partir de duas grandes vertentes: as autonomistas, que defendem que o feminismo deve se manter independente das instituições, e as que acreditam que é fundamental ocupar espaços dentro do Estado para promover mudanças estruturais. No Brasil, essa relação entre feminismo e Estado se intensificou a partir da década de 1980, quando surgiram os primeiros conselhos da condição da mulher. Desde então, houve uma intensa luta para a criação de um ministério voltado às mulheres. Quando o Lula venceu sua primeira eleição e assumiu o governo em 2003, rapidamente foi criada a Secretaria Especial das Mulheres com status de ministério. Mas essa institucionalização não aconteceu apenas com a atuação de mulheres dentro do governo; os movimentos feministas tiveram um papel fundamental nesse processo. Durante os primeiros governos petistas, houve uma forte presença dos movimentos sociais na formulação de políticas públicas. Muitos ativistas, que antes militavam em ONGs de maneira autônoma, passaram a ocupar cargos estratégicos no governo. O Ministério das Mulheres reunia diversas militantes feministas em posições de liderança, e havia um esforço para garantir que as pautas de gênero fossem transversais, ou seja, estivessem presentes em vários outros ministérios. Essa transversalidade gerou avanços concretos para as mulheres. Foram implementadas políticas que garantiram titularidade de terras e moradias em nome das mulheres, além da ampliação das delegacias especializadas no atendimento a mulheres vítimas de violência. Foi nesse contexto que surgiu a Lei Maria da Penha, em 2006, um marco na luta contra a violência doméstica no Brasil. No governo Dilma, essa estrutura continuou, e a ministra Eleonora Menicucci[2], uma das feministas mais importantes do Brasil, esteve à frente da Secretaria de Políticas para as Mulheres. No entanto, com a ascensão da extrema-direita ao poder, essa estrutura foi desmontada, e o feminismo de Estado sofreu um duro golpe com o desmonte das políticas de gênero que haviam sido construídas ao longo dos anos anteriores.

IR: Como a senhora avalia o impeachment da presidenta Dilma Rousseff?
CP: O impeachment da presidenta Dilma Rousseff foi um golpe. Eu já escrevi sobre isso e coordenei, junto com dois colegas—uma do IBGE e outra do Instituto Pagu—uma pesquisa nacional sobre as eleições da Dilma. Essa pesquisa foi realizada através de um edital do governo, pelo qual recebemos um volume significativo de recursos, permitindo-nos desenvolver um estudo extenso e detalhado sobre o tema. O resultado foi um livro de quase mil páginas, fruto de dois anos de pesquisa, incluindo levantamentos de opinião realizados pelo Ibope. Infelizmente, o livro teve uma distribuição muito limitada, pois foi publicado pela imprensa oficial e não poderia ser comercializado, o que dificultou sua circulação. Mas, voltando ao impeachment da Dilma, eu não tenho dúvidas de que, se ela não fosse mulher, não teria sido alvo desse processo. E não apenas pelos parlamentares que votaram a favor daquele impeachment em uma sessão absolutamente bizarra, mas, sobretudo, pelo próprio PT. Dilma foi abandonada pelo partido, e um dos principais motivos para esse abandono foi o fato de ser mulher. Eu mesma ouvi homens do partido se referindo a ela com desdém, dizendo: “também, essa mulher…”. Dilma sempre foi tratada como “essa mulher”, como se não fosse uma liderança legítima dentro do partido e do governo. Ela mesma tem uma frase muito significativa sobre isso: “Me chamam de dura, me chamam de agressiva. Sim, sou uma mulher dura e agressiva em meio a homens meigos.” Essa observação é fundamental porque, quando um homem é firme, fala grosso e se impõe, ele é visto como um grande líder. Quando uma mulher faz o mesmo, é tachada de autoritária, inflexível e sem habilidade política. Chegaram a afirmar que Dilma não era uma política, que era apenas uma técnica. Ora, como assim? Estamos falando de uma mulher que enfrentou a ditadura, foi para a clandestinidade, foi presa, barbaramente torturada e sobreviveu a um pau de arara. Ela era uma militante muito antes de muitos dos que a acusavam de “não ser política”. E quem eram os verdadeiros políticos então? Sarney? Temer? Como é possível que tenham colado nela essa narrativa absurda de que nunca fez política? Eu estou absolutamente convencida de que o impeachment da Dilma teve um forte componente de gênero. Todos sabiam que não havia base jurídica para sua destituição. Mas o Brasil tem uma tradição de análise política e jornalística profundamente institucionalista. Como os ritos foram seguidos, alguns dizem que não foi golpe. Mas foi um golpe. Criaram um crime fictício para enquadrá-la no processo e viabilizar sua remoção. E isso foi possível, entre outras razões, porque ela era uma mulher. E porque o PT a abandonou completamente.
IR: A senhora também constatou que, em 2018, as deputadas de extrema-direita tomaram a base eleitoral dos movimentos de rua surgidos a partir de 2013, enquanto as da esquerda seguiram trajetórias políticas mais tradicionais. O que são essas trajetórias políticas mais tradicionais, características das mulheres da esquerda?
CP: Na história política do Brasil, as formas de entrada na política sempre foram diferentes para a esquerda e para a direita. As mulheres da esquerda, tradicionalmente, tiveram dois caminhos principais para ingressar na política partidária: os sindicatos e os centros acadêmicos. Se analisarmos a trajetória de políticos e políticas de esquerda, veremos que muitos passaram por essas estruturas de organização. No caso de quem não chegou ao ensino superior, essa formação política podia começar já no ensino médio, dentro de grêmios estudantis. Esse é um padrão que se repete historicamente. Já as mulheres da direita costumavam ingressar na política por outro caminho: o familiar. Historicamente, a direita sempre teve poucas mulheres em seus quadros, mas as que conseguiam entrar geralmente eram esposas, irmãs ou sobrinhas de políticos tradicionais. O filho homem, normalmente, é o herdeiro político; a filha mulher, não. Então, as mulheres da direita entravam na política quando um político da família saía de cena, fosse para assumir outro cargo, fosse porque falecia, e elas herdavam seu capital político. O que aconteceu em 2018 foi uma ruptura nesse padrão. As mulheres de esquerda continuaram seguindo as trajetórias tradicionais, vindas dos sindicatos e do movimento estudantil. Isso não aconteceu só no Brasil, mas também na Argentina, no Uruguai e no Chile. Já as mulheres de direita passaram a surgir de um novo espaço: os movimentos de rua que emergiram a partir de 2013 e as igrejas, especialmente as evangélicas, mas também a Igreja Católica. Ou seja, a extrema-direita começou a formar um novo perfil de mulher na política, que não dependia mais de uma ligação familiar direta com figuras masculinas. Isso cria o que eu chamo de “paradoxo do feminismo”, um tema que estou desenvolvendo em um artigo para um blog da UFRJ. Esse paradoxo se dá porque, quando lutamos para ampliar a participação política das mulheres, não podemos escolher quais mulheres vão ocupar esses espaços. As feministas sempre defenderam que mais mulheres estivessem na política, mas essa luta acabou abrindo caminho também para figuras como Carla Zambelli, Carolina de Toni e outras da extrema-direita, que hoje lutam contra todas as conquistas feministas. Um exemplo disso é o Estatuto do Nascituro, que busca proibir o aborto em qualquer circunstância, inclusive em casos de estupro ou risco de morte para a gestante. Esse projeto não foi retomado por um político qualquer, mas por essas deputadas mulheres. Isso mostra o paradoxo: essas mulheres só chegaram ao poder porque o feminismo abriu caminho para que mais mulheres participassem da política. O mesmo aconteceu no movimento negro, quando um homem negro – Sérgio Camargo – assumiu a presidência da Fundação Palmares para promover um discurso racista contra os próprios negros. Ele só estava lá porque o movimento negro lutou para que houvesse mais representatividade. Ou seja, não temos controle sobre quem ocupa os espaços conquistados. E hoje vemos um número significativo de mulheres no Congresso lutando contra o feminismo, sendo que elas só estão ali porque a luta feminista aconteceu. Esse é um grande paradoxo do nosso tempo.
IR: O PT e outros partidos de esquerda se posicionaram a favor da PEC da Anistia aos Partidos Políticos em 2024, liberando-os da punição por não cumprimento da cota de gênero nas eleições de 2022[3]. Como a senhora avalia essa postura?
CP: Isso é um absurdo, realmente. E é repetitivo. Em todas as eleições acontece a mesma coisa. Por que os partidos aceitam essa anistia? Porque, se tivessem que pagar a multa, seria um valor enorme para se regulamentarem novamente. Então, eles simplesmente aceitam essa saída. E isso é uma indecência. O PT, que nominalmente tem um compromisso com a questão de gênero, não é diferente dos outros partidos nesse aspecto. Apesar de ter uma presidenta, a Gleisi Hoffmann, o PT continua sendo um partido de homens, assim como todos os outros. Quando os partidos não cumprem as cláusulas de financiamento para mulheres, que são obrigatórias, ao invés de arcar com as penalidades impostas pelo Tribunal Superior Eleitoral, eles simplesmente aprovam uma autoanistia. Isso é um descaramento, algo que não dá para perdoar. O problema central é a falta de poder das mulheres dentro dos partidos. Como elas negociam suas posições? Como conquistam espaço real dentro dessas estruturas? Essa é uma questão fundamental a ser vista, porque os partidos continuam sendo espaços oligárquicos e fechados, nos quais a presença feminina, mesmo em partidos progressistas, ainda enfrenta enormes barreiras.

IR: Nos últimos anos, tem se falado mais sobre o aumento da violência política contra as mulheres. Esse crescimento se deve a uma maior medição e visibilidade desses casos, ou reflete um real agravamento do problema? Como a senhora analisa essa questão no contexto político brasileiro?
CP: A violência política contra as mulheres precisa ser vista dentro de um panorama mais amplo do Brasil. De um lado, há um maior número de denúncias, uma menor tolerância das mulheres a esse tipo de violência e uma maior visibilidade do problema. Isso faz com que os casos pareçam aumentar, pois estão sendo mais apontados e expostos. Por outro lado, há também uma escalada real da violência no país, e isso não começou agora. Durante os quatro anos de governo da extrema-direita, vimos uma exaltação da violência e do machismo mais primário e desequilibrado. A distribuição de armas para os chamados caçadores e colecionadores (CACs), a normalização do discurso violento e a constante incitação ao ódio político criaram um ambiente ainda mais hostil para as mulheres na política e na vida pública. Se antes o assédio moral e sexual eram encarados como normais, agora as mulheres falam sobre isso e denunciam. Mas ainda há um longo caminho a percorrer, especialmente em um país onde a posse de armas cresceu tanto e onde figuras de autoridade, como o ex-presidente, usaram discursos que reforçam essa mentalidade agressiva. O que vimos nos últimos anos, com a figura do “imbrochável” e outros absurdos, não aconteceu em nenhum outro lugar do mundo. Eu duvido que, entre os 193 países que fazem parte da ONU, haja um caso semelhante ao que vivemos aqui.
IR: A senhora aponta que o capitalismo tem dificuldade de coexistir com a democracia, especialmente quando surgem demandas por direitos e igualdade. Como esse cenário impacta a luta das mulheres por mais espaço na política?
CP:Essa é uma questão complexa e de longo prazo. Historicamente, não houve democracia fora do regime capitalista, mas o próprio capitalismo passou por transformações que afetaram sua relação com a democracia. A partir da década de 1980, com o avanço do neoliberalismo, houve uma ruptura com o modelo de socialdemocracia que predominou após a Segunda Guerra Mundial. Esse modelo garantia direitos sociais e certa estabilidade, pois o capitalismo precisava competir com a existência do socialismo real. Com o colapso do bloco socialista entre 1989 e 1990, o capitalismo deixou de ter esse “inimigo” e passou a se desresponsabilizar da democracia. Ele não precisava mais oferecer direitos sociais para manter sua hegemonia, e, aos poucos, foi se tornando menos democrático. Hoje, vivemos um cenário em que o capitalismo não depende mais do apoio das camadas populares, dos sindicatos ou dos partidos populares. A consequência disso é a desregulamentação do trabalho e o enfraquecimento das organizações que garantiam direitos a mulheres, negros, LGBTQIA+, povos indígenas e outros grupos historicamente marginalizados. Esse contexto torna a luta das mulheres na política ainda mais difícil, porque o sistema está se fechando cada vez mais. Movimentos de direita estão avançando, e são justamente os grupos que defendem igualdade e ampliação de direitos os primeiros a serem cortados desse processo. O caso recente do Elon Musk tentando interferir nas eleições da maior economia da Europa, a Alemanha, é um exemplo claro de como o poder econômico está cada vez mais distante da lógica democrática. Esse avanço da direita representa um grande desafio para os movimentos sociais, pois a estrutura política e econômica atual não só restringe a participação das mulheres na política, mas também ameaça conquistas históricas.
IR: Seu livro “Uma História do Feminismo no Brasil” é um marco. Ele foi considerado o primeiro livro brasileiro que sistematizou o feminismo. Como foi a experiência de escrevê-lo?
CP: Eu sempre digo que ele se tornou popular não necessariamente porque é um livro excepcional, mas porque era o único disponível naquele momento. Quando você não tem concorrência, naturalmente sua obra ganha mais visibilidade. Mas, de qualquer forma, foi um livro que escrevi no início dos anos 2000, publicado pela primeira vez em 2003, dentro de um projeto da Fundação Perseu Abramo, que buscava produzir livros de divulgação com um viés acadêmico, ou seja, que tivessem rigor teórico, mas fossem acessíveis para um público mais amplo. A ideia era justamente essa: escrever um livro que qualquer pessoa pudesse ler e entender, sem abrir mão da profundidade necessária. Mas não foi um livro fácil de escrever. O feminismo, os movimentos feministas, as mulheres que construíram essa história não são simples. Como retratar essa trajetória sem cair em idealizações ou omissões? Foi um grande desafio. Ainda assim, acho que consegui reunir o que estava disponível na época, o que fez com que ele se tornasse um livro muito conhecido e citado. Ele esgotou rapidamente, ficou caríssimo na Estante Virtual, e, no ano passado, publiquei uma nova edição. Acrescentei um novo capítulo, que funciona como uma atualização do livro, e reescrevi a introdução para destacar seus limites. Eu queria deixar claro que aquele livro foi escrito dentro de um determinado contexto, com as referências e discussões que existiam naquele momento. Não dá para cobrar de um livro de 2003 elementos que simplesmente não estavam em debate na época. Mas fico muito feliz porque vejo que ele é muito referenciado e, claro, isso me deixa contente. Mas também acontece de algumas pessoas ficarem repetindo determinadas referências como se não houvesse outras produções. Tenho, por exemplo, outro texto muito citado, História, Poder e Política, que eu, pessoalmente, não gosto muito. Mas é um dos meus textos mais referenciados! É curioso isso: a gente não tem controle sobre a recepção da nossa própria produção. Mas, voltando à História do Feminismo no Brasil, eu realmente gosto desse trabalho. Foi um livro que fiz com seriedade, e me alegra que ele continue sendo lido e citado. De todo modo, no fim das contas, não controlamos quais trabalhos serão mais destacados. A recepção acadêmica e pública tem vida própria.
IR: A senhora tem estudado a trajetória política das mulheres, analisando suas estratégias de luta, o sucesso e a longevidade de seus mandatos. Que conselho daria para uma mulher interessada em ingressar na política, mas que ainda não tem certeza se esse caminho é para ela?
CP: Se uma mulher deseja entrar na política, a primeira coisa que ela precisa entender é que política se faz dentro dos partidos. Não existe política sem partido. A ideia de que a sociedade civil, sozinha, mobilizando-se em protestos de rua, pode fazer política de maneira efetiva é um equívoco. Quem entra para a política sem estar vinculado a partidos logo acaba integrado a eles – foi o que aconteceu com várias figuras de direita que surgiram nos protestos de 2013 e, em 202218, já estavam filiadas a partidos poderosos e bem financiados. As mulheres precisam entender que, ao entrarem para um partido, não basta apenas concorrer a cargos; elas precisam lutar por espaço real dentro dessas estruturas. E isso não significa apenas garantir cotas ou discursos feministas dentro dos partidos, mas disputar posições de comando. Muitas vezes, os partidos dão cargos simbólicos para mulheres – elas aparecem como vices, mas o poder real continua com os homens. Isso acontece tanto na direita quanto na esquerda. A luta não é só pela representação nas eleições, mas pela ocupação de espaços estratégicos dentro das direções partidárias. A política é uma disputa de poder. Quem diz que não gosta de poder não deveria entrar para a política, porque política é essencialmente disputa de poder – seja para aprovar retrocessos ou para garantir direitos. Se as mulheres não romperem com a estrutura oligárquica dos partidos dominados por homens brancos e velhos, continuarão sendo minoria e não terão influência real. O Brasil tem um dos piores índices de representatividade feminina na política, ficando atrás de praticamente todos os países da América Latina, com exceção do Haiti. E mesmo em governos progressistas, vemos mulheres sendo descartadas com facilidade. No governo Lula, por exemplo, Daniela Carneiro (Turismo), Ana Moser (Esportes) e Nísia Trindade (Saúde) foram substituídas sem grandes resistências, enquanto ministros homens permanecem no cargo. Se uma mulher quer ingressar na política, ela deve entrar para disputar o poder.
Notas
[1] Adolfo Lutz, pai de Berta, foi um médico e epidemiologista suíço-brasileiro, pioneiro na medicina tropical.
[2] Socióloga, professora titular aposentada da Unifesp, professora sênior da UFABC e presidenta do conselho da Fundação Perseu Abramo.
[3] Em 11 de julho de 2024, a Câmara dos Deputados aprovou a PEC da Anistia, uma emenda que perdoou multas a partidos que descumpriram cotas orçamentárias de gênero e raça nas eleições de 2022. A proposta teve apoio do PT, partido do governo, e do PL, principal sigla da oposição, com resistência apenas das bancadas da federação Psol-Rede e do Novo. A medida reforçou a recorrente autoanistia dos partidos, prática que enfraquece a efetividade das cotas eleitorais.
A história não anda sozinha.
Os avanços das mulheres na política são reais, mas também são acompanhados por retrocessos e respostas conservadoras. Entender essa dinâmica é fundamental para não repetir os erros do passado – e para construir novas estratégias no presente.
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