Foto: Divulgação/Conspiração Filmes / Pipoca Moderna
Por Clarissa Henning
Eunice Paiva nunca quis ser política. Sua trajetória começou pela dor. Durante a ditadura militar, viu o marido, Rubens Paiva, ser sequestrado e morto pelo regime. Sem notícias, sem corpo e sem respostas, teve que se reinventar para manter a família e lutar por justiça.
A política chegou como consequência da resistência. Em um tempo em que poucas mulheres ocupavam espaços públicos, ela se tornou advogada. Entrou na arena pública para lutar em nome dos desaparecidos políticos e também se tornou uma defensora ferrenha dos povos indígenas. Eunice enfrentou uma estrutura que esperava dela o silêncio e a conformidade.
Essa história — que agora impressiona o Brasil e o mundo com o filme Ainda Estou Aqui — não é uma peça do passado. Ela ecoa os desafios enfrentados por cada mulher que se atreve a entrar na política. Porque, para elas, a barreira nunca é só ganhar uma eleição. O sistema cria obstáculos antes, durante e depois da conquista do mandato. Seja impedindo candidaturas de verdade, seja através da violência política de gênero, a mensagem sempre foi a mesma: a política não foi feita para elas.
Candidaturas fictícias
A legislação eleitoral brasileira determina que ao menos 30% das candidaturas devem ser femininas. Mas, na prática, os partidos encontraram uma maneira de manter as mulheres longe do poder sem descumprir a regra no papel. O truque? Candidatas laranja.
Isso acontece quando partidos registram mulheres que não fazem campanha, não recebem recursos e, muitas vezes, nem sabem que estão concorrendo. Nas eleições de 2024, 700 municípios brasileiros foram flagrados burlando a cota de gênero. Alguns casos foram tão evidentes que havia candidatas que receberam zero votos — nem elas próprias votaram em si mesmas.
A fraude já é conhecida e, quando vem à tona, os tribunais cassam algumas chapas. Mas isso não resolve o problema porque, na política, fraudar compensa. Quando os partidos são punidos, o Congresso entra em cena para blindá-los de qualquer consequência.
Blindagem institucional
Em 2024, o Congresso aprovou mais uma anistia, livrando os partidos de qualquer penalidade por descumprirem a cota de gênero. Essa não foi a primeira vez. Houve outra em 2022 e é quase certo que haverá mais no futuro.
O recado é claro: fraudar eleições não gera punição real. Partidos seguem registrando mulheres apenas para cumprir tabela e, depois, são perdoados, sem qualquer impacto nas próximas disputas. Apesar de tudo, algumas mulheres conseguem se eleger – mas há ainda um longo caminho a percorrer.
O número de mulheres na política segue vergonhoso
O Brasil está na 135ª posição entre 193 países no ranking mundial de participação feminina na política. A sub-representação feminina não é um acidente, e os números mais recentes escancaram esse cenário.
Vereadoras: 16% das cadeiras ocupadas por mulheres.
Prefeitas: 12% dos municípios têm prefeitas.
Deputadas estaduais: 18% das deputadas estaduais eleitas são mulheres.
Vice-governadoras: 11% dos estados brasileiros têm vice-governadoras.
Governadoras: 7,4% dos estados – Rio Grande do Norte e Pernambuco – são governados por mulheres.
Deputadas federais: Mulheres ocupam 17,7% das cadeiras.
Senadoras: 18,5% das cadeiras são ocupadas por mulheres.
O método para silenciar mulheres eleitas
Conquistar um mandato é só o começo. Mulheres eleitas lidam diariamente com tentativas de desestabilização, ataques coordenados e boicotes institucionais. Isso tem um nome: violência política de gênero.
Esse tipo de violência não acontece porque as mulheres são incompetentes ou fracas. Acontece porque elas existem, porque elas ocupam o que sempre foi negado a elas, porque elas são capazes e porque incomodam.
Como isso acontece na prática?
- Violência simbólica: “Mulheres não entendem de política”. Deputadas são infantilizadas, ignoradas em debates ou não levadas a sério.
- Violência psicológica: Assédio moral, ameaças de morte e campanhas de difamação para desestabilizar sua atuação.
- Violência física: Parlamentares cercadas, empurradas ou intimidadas dentro das casas legislativas.
- Violência sexual: Comentários de cunho sexual, assédio e exposição de sua vida privada para desacreditá-las.
- Violência econômica: Menos verba para campanhas, restrições para emendas parlamentares e boicote a projetos liderados por mulheres.
A pergunta que fica é: se o sistema é tão hostil, por que elas continuam?

Aqui estamos – e daqui não sairemos
Eunice Paiva não escolheu a política. A política veio para ela como parte de uma luta maior. E essa tem sido a história de muitas mulheres na política brasileira.
Elas não entram na disputa para cumprir tabela. Não entram porque são “filhas, esposas ou viúvas de” – pelo menos, a maior parte… Elas entram porque querem mudar as regras. E talvez por isso a resistência contra elas seja tão brutal.
O filme Ainda Estamos Aqui não é só sobre Eunice. É sobre cada mulher que ousa entrar na política e permanecer. E se ainda estão aqui, é porque nunca aceitaram a condição de passageiras na história.